"Na reabilitação urbana a fome junta-se à vontade de comer"

Com mais de 340 colaboradores, O Grupo Azevedos espera atingir este ano 65 milhões de euros de facturação, ultrapassando o volume de 2010, que foi de 62 milhões. A crise assusta, mas também impõe maior esforço de todos e o alargamento a novos mercados, continuando e, até, alargando os exigentes desafios da aposta no Centro Histórico do Porto: Quarteirão das Cardosas, Quarteirão do Corpo da Guarda e Ruas de Mouzinho da Silveira e das Flores.

Um dos líderes do grupo de Vilar do Pinheiro (Vila do Conde), Filipe Azevedo (licenciado em engenharia pela Universidade do Porto), conversa com o GP no Café Astória, primeiro, e no Bar das Cardosas, dois dos elementos distintivos do Hotel InterContinental do Porto (HIP) – Palácio das Cardosas, que é uma das âncoras do quarteirão do mesmo nome. A outra é o parque de estacionamento, já em funcionamento, também.

Como está a ser sentida a crise no grupo?
Na construção civil tem de ser maior o esforço para angariar negócios. É preciso maior agressividade e oferecer preços mais baixos do que os concorrentes. No imobiliário não se escoa o que existe. Na área dos materiais de construção aposta-se na exportação.
 
A Lucios também vai seguir esse caminho?
No âmbito da construtora está a ser preparada a internacionalização em algum mercado de África (que não Angola), em algum da Europa de Leste e também no mercado sul-americano.
 
Nomeadamente o Brasil?
Aí só na parte imobiliária.
 
Porque não Angola?
Angola rege-se por princípios com os quais não nos identificamos.
 
A situação do sector é negra…
Há muitas empresas a fechar. A situação é mesmo dramática. Empresas sólidas e muito reconhecidas no mercado estão a desaparecer. Sofrem de problemas de liquidez. O problema sente-se na pirâmide dos grandes para os pequenos empreiteiros, num mercado sensível.
 
O que pode alterar a situação?
A estabilização da economia. Enquanto se falar em crise e em problemas associados à crise, não haverá estabilidade. É necessário um programa muito amplo e profundo para o sector da construção em geral. Mas não será com linhas de TGV, que somente favoreceriam as empresas estrangeiras. A economia no sector será dinamizada, sim, com a reabilitação urbana, que movimenta grandes e pequenos empreiteiros, que dinamiza toda a actividade.
 
Que apoio espera do Estado?
Sabemos que os recursos não são muitos, mas são necessárias algumas medidas a nível governamental.

Procurar o mercado internacional é a melhor solução?
Para quem tiver possibilidades de o fazer, é. Mas é preciso preparação adequada. No nosso caso, incrementámos as exportações as exportações para o estrangeiro nos materiais de construção, que já andarão nos 20-30% da facturação do Grupo, que deve atingir os 65 milhões de euros neste ano.
 
Qual é o investimento no Quarteirão das Cardosas?
À volta de 12 milhões, como promotores. No HIP actuámos como empreiteiro.
 
E no Quarteirão do Corpo da Guarda?
A obra orça os 3300 milhões de euros. A nossa percentagem, como promotores, é de 20%.
 
Vão fazer outros investimentos no Centro Histórico do Porto?
Já adquirimos prédios nas Ruas de Mouzinho da Silveira e das Flores. Sobre o trabalho de reabilitação ainda não posso adiantar nada.
 
Teme que não seja bem sucedida a comercialização das áreas comerciais e das habitações no Quarteirão das Cardosas?
Não. Pelo contrário. O parque de estacionamento foi vendido. Metade dos espaços comerciais também já foi vendida, ainda sem haver venda oficial. As habitações vão ser comercializadas a partir de Março de 2012.
 
Uma das duas lojas maiores, de 400 m2, foi vendida para o Welcome Center do turista, para o Turismo do Norte, e a outra?
A outra está a ser negociada com uma entidade do Porto.
 
E as lojas mais pequenas?
As que foram comercializadas – e constituem a maior parte – são de investidores que apostam no mercado de arrendamento.
 
As habitações são de tipologia reduzida, T0, T1…
… E T1+1. Correspondem a 85% das habitações a vender. Os restantes 15% são para T2 e T2+1.
 
A que preços?
De 90 mil a 300 mil euros.
 
Com lugar de garagem?
Todos os apartamentos têm direito de opção no parque de estacionamento.
 
A “movida” não será problema, não afastará pretendentes a viver na Baixa do Porto?
Não. Não estamos preocupados. Deve haver algumas regras, mas é preciso aproveitar o movimento e, até, estendê-lo para outras zonas do Centro Histórico. O que é preciso é mais segurança e fazer girar a economia do comércio local.
 
Como se compatibiliza a construção nova na cidade com a reabilitação do edificado?
As entidades competentes devem promover e proporcionar vantagens para os espaços mais degradados, até porque estes podem trazer dissabores em questões de segurança.
 
Deve, então, ser dada prioridade à reabilitação?
Sem dúvida nenhuma – e, principalmente, no Centro Histórico. A degradação dói mais quanto se vê o que se faz lá fora. Temos muita riqueza muito mal tratada ao longo de muitos anos.
 
O processo da SRU (Porto Vivo) não parece ser suficiente…
Seria suficiente se os outros mecanismos funcionassem. As leis do arrendamento e das expropriações não estão adequadas à reabilitação.
 
Evitar a descaracterização e inércia
 
Entretanto, há queixas relativamente às pessoas que são deslocalizadas do Centro Histórico…
A reabilitação casa a casa, prédio a prédio não faz sentido, está condenada ao insucesso. A reabilitação devia ser feita por quarteirões ou conjunto de prédios, ao mesmo tempo que se deve cuidar de quem seja possível alojar. Mas, como os dinheiros públicos não chegam para tudo, devem ser os privados a desenvolver sinergias com o apoio dos poderes públicos, que devem beneficiar os privados através de isenções de impostos e de taxas urbanísticas e uma agilização dos processos, como a Câmara Municipal do Porto tem feito muito bem através da SRU. Neste contexto, uma parte das pessoas que vive no Centro Histórico tem que ser deslocalizada. Mas antes disso é preciso aproveitar prédios devolutos e desenvolver uma acção criativa para alojamentos e realojamentos para que não se descaracterize o Centro Histórico nem tenha que continuar tudo como está. A verdade é que os fundos comunitários não chegam, pelo que se torna fundamental dar vantagens à promoção imobiliária relativamente ao que fica fora das áreas classificadas como Património Mundial. É preciso, nessa estratégia, partir do núcleo para a periferia do Centro Histórico.
 
E não deve ser considerada a contenção de custos nas habitações reabilitadas?
A experiência diz-nos que os centros históricos são mais caros. Mas é preciso, além de não os descaracterizar, atrair jovens, nomeadamente universitários, das artes… E isto está a acontecer. Além disso, tem de se cuidar dos estabelecimentos de restauração e de soluções hoteleiras.
 
Mas ainda não se percebeu a importância que o meio académico pode ter na revivificação da Baixa…
É prioritária a iniciativa privada, mas é também importante o envolvimento das universidades e da autarquia a fazer a ligação.
 
Se fosse membro do Governo, que decisão tomaria?
Criava um programa amplo e estruturado do segmento de obras como é a reabilitação urbana, em que a fome se junta à vontade de comer. É preciso conter a exportação de mão-de-obra qualificada e apostar na formação de técnicos, em que há carência. Um bom técnico de caldeiras ou de aquecimento tem maior remuneração do que grande parte de licenciados em diversos cursos.
 
Está assustado com o futuro?
Assustado não estou; preocupado, sim.
 
 
Fonte: Grande Porto