As angústias de gerir em tempos de crise

Filipe Azevedo conduz os destinos da Lucios, construtora que figura na lista de PME Excelência do IAPMEI. Ao arrepio da tendência do sector, resistiu à sedução dos mercados externos e desistiu de crescer além dos 50 milhões de euros para se manter ágil e eficiente. Em 2011 fica no limite (52 milhões), crescendo 10% num ano em que a indústria cai no mínimo 8%. Emprega 300 pessoas.
Como é que uma construtora que só opera no mercado interno resiste à sova que o sector está a levar?
A fórmula é a mesma dos últimos seis anos. Uma aposta no segmento de reabilitação que pesa 60% na carteira de encomendas de 60 milhões de euros e mantendo uma política comercial muito agressiva. Neste momento, a nossa preocupação principal é 2013. O próximo ano está garantido, à exceção do último trimestre. As obras serão cada vez mais escassas e temos de estar preparados para margens cada vez mais esmagadas. Para ganhar obras, as empresas descem os preços 15% ou 20%. Responderemos com uma crescente especialização na reabilitação e preço agressivo, aliado às nossas competências específicas e imagem de empresa sólida.
Esta é, porventura, a maior crise da indústria.
O meu pai cita muitas vezes a crise dos anos 80, com os juros acima dos 20%. Mas reconhece que nada é comparável com o que se vive agora. É uma situação única, mais prolongada e severa. A indústria sofre com a queda na procura e a dificuldade de acesso ao crédito. O sector sempre viveu muito dependente do crédito e precisa de aguentar a tesouraria entre a execução e o pagamento dos clientes. Os anos 2012 e 2013 serão terríveis. Admito que o desemprego duplique e muitas empresas não evitem a insolvência.
Como é gerir uma empresa num ambiente tão depressivo?
Temos de apertar tudo até ao limite. Retirar todas as gorduras, cortar nos custos supérfluos, racionalizar as comunicações de empresa, frota automóvel, atuar nos recursos humanos. Temos de pedir esforços a toda a organização, optimizar os recursos disponíveis. Mas tudo isto pode não chegar. Há uma altura em que não se pode pedir mais sacrifícios às pessoas. A partir daí, tem de ser a capacidade da empresa de gerar mais valor para diferenciar-se dos concorrentes e refinar a sua competitividade.
Quais as medidas mais incisivas que tiveram de adotar?
Reduzimos as horas extras em mais de 50%, optimizando a gestão de obra. Depois, racionalizamos nos transportes, combustível e comunicações. O essencial é manter o grupo coeso, envolvendo a organização nas decisões. Queremos tirar mais de cada pessoa, sem retirar regalias.
Como se consegue manter ou potenciar a motivação dos colaboradores?
Não pedir demasiados sacrifícios. As pessoas estabeleceram vidas com pressupostos e teremos de respeitar isso. Não admitimos, por exemplos, cortes salariais. É mais útil atuar sobre a produtividade, estimular os que estão mais acomodados. Devemos caminhar para um modelo de remuneração em que uma parte variável ligada ao desempenho seja mais relevante. Ter uma gestão profissionalizada e uma organização aberta e disponível a ouvir os colaboradores são outros factores de motivação. Uma das razões que nos levou a limitar o crescimento foi, precisamente, a lógica da empresa familiar em que o dono está sempre ao alcance e ao dispor de colaboradores e do cliente final.
Tivemos uma fase de crescimento, mas atingida a meta dos 50 milhões de euros a prioridade foi optimizar a produtividade da estrutura. Olhando para os anos de ouro da construção, verificamos que a generalidade das empresas registou um crescimento demasiado grande para o nosso mercado. E muitas vezes sem uma estrutura adequada. Houve construtoras que incharam, em vez de crescer. Habituaram-se a um ritmo que não era possível manter. É esse o naipe de empresas que enfrenta mais dificuldades e sofre mais com a crise.
Não temos mercado para a capacidade instalada?
Não temos. Houve empresas do nosso campeonato que em poucos anos passaram para 100 milhões ou 150 milhões de euros. Cresceram à base de lóbi, de forma pouco saudável. É fácil crescer quando tudo corre bem. Mas não se fica preparado para uma época de crise prolongada, para gerir na fome. Algumas enveredaram por outros negócios, outras internacionalizaram-se à pressa e sem estarem preparadas.
As grandes construtoras não estão mais protegidas?
No mercado interno, não. Têm até à vida mais complicada e têm reduzido ao mínimo os seus corpos técnicos, concentrando-se no exterior. Com estruturas pesadas, não conseguem ser competitivas em obras mais pequenas. Todas elas estão muito ligadas à banca, mas o grau de dependência é variável. Nuns casos terão autonomia, noutros estarão reféns da banca.
Por isso, a Lucios não quis crescer.
Por duas razões estratégicas. Manter o figurino de empresa familiar, profissionalizada, que força a alguma contenção no crescimento. A segunda tem que ver com as vantagens financeiras de permanecer no universo PME e a capacidade de controlar a nossa própria dimensão.
Qual a decisão mais ingrata que uma crise como esta pode forçar?
Ter de despedir pessoas ou chegar ao fim do mês e não ter dinheiro para pagar salários. Seria sempre dramático. Despedir não está no nosso ADN e espero nunca ser forçado a encarar essa possibilidade. Falhar o pagamento rompe com a confiança e deixa marcas que podem ser irreversíveis.
Em quem se inspirou ou com quem se aconselha para tomar decisões difíceis?
Recorro a um grupo restrito de responsáveis da empresa. As decisões são colegiais e resultam sempre de uma visão partilhada. Há, todavia, duas pessoas com preponderância especial: o meu pai e o meu irmão.
Se tudo o que pode correr mal, correr mesmo mal, será o dilúvio no sector?
Sim, pode sempre correr pior. O exercício que temos que fazer é saber qual o mercado que vai sobrar. Vai depender da evolução do país. Mas parece-me impossível desinvestir tanto como às vezes se receia. A reabilitação urbana surge como a solução ideal, apoiada por todos os partidos. Escolas e edifícios públicos serão cada vez mais raros, o segmento industrial permanecerá parado e a construção residencial nova não voltará a animar. O mercado será disputado por menos empresas, as que resistiram e sobreviveram. As empresas menos preparadas e mais dependentes da banca estão condenadas. No fim deste ajustamento, a concorrência ficara mais saudável. No nosso caso, poderemos encarar a expansão para outros mercados para ajustar a produção à capacidade instalada.
Fonte: Exame
